sexta-feira, 1 de maio de 2015

"Descobri - numa carta de Clarice Lispector para Lúcio Cardoso – que polisipo, em grego, significa "pausa na dor". Têm sido, estes dias, polisipos. Que os teus também". (Caio F. em carta para Luciano Alabarse, 31.08.88, Caio Fernando Abreu - Cartas, organizado por Italo Moriconi, p. 163).

Que vocês me perdoem o eco, mas depressão e procrastinação sempre andaram juntas. Digo isso porque há muito tenho pensado em criar um blog sobre o assunto. Mas sempre fui deixando para amanhã, para amanhã... E qual seria exatamente o assunto? Depressão, sem dúvida. E qual seria o intuito dele? Bom, à primeira vista, gostaria que ele fosse um tipo de desabafo, mas que não ficasse restrito apenas aos meus queixumes e reclamações e nem às minhas dores. Eu gostaria que ele fosse um meio de vazão dos meus sentimentos, já que nem sempre temos a sorte de encontrar pessoas pacientes e dispostas a nos ouvir. Sim, talvez as linhas sejam realmente mais pacientes do que as pessoas. Gostaria de enxergá-lo como um ponto de encontro de pessoas que sofrem deste mesmo mau e lutam todos os dias contra essa doença, embora muitas das vezes se sintam cansadas, exauridas, incompreendidas e quase pensam em desistir.


Quando ainda muito jovem, tive a oportunidade de ler a carta de Clarice Lispector enviada ao seu amigo Lúcio Cardoso no livro “Correspondências”. O conceito de Polisipo se encaixa completamente em meu interesse pela busca por um refúgio a nós todos, um lugar no qual possamos suspender a nossa dor (porque não a elevar também?), compartilhar, trocar, fugir dela... O meu livro (onde consta essa carta) ficou no sul, aliás, a minha coleção inteira de livros da Clarice lá ficou. Assim como parte de uma vida inteira. Não tive a oportunidade de relê-la ao escrever este texto. Mas espero com sinceridade que este blog cresça e dê frutos, pois eu ainda acredito muito na troca e na capacidade do ser humano de ser empático e criar laços sãos, mesmo que virtuais. 

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