"Descobri - numa carta de
Clarice Lispector para Lúcio Cardoso – que polisipo, em grego, significa
"pausa na dor". Têm sido, estes dias, polisipos. Que os teus também". (Caio F. em carta para Luciano Alabarse, 31.08.88,
Caio Fernando Abreu - Cartas, organizado por Italo Moriconi, p. 163).
Que vocês me
perdoem o eco, mas depressão e procrastinação sempre andaram juntas. Digo isso
porque há muito tenho pensado em criar um blog sobre o assunto. Mas sempre fui
deixando para amanhã, para amanhã... E qual seria exatamente o assunto? Depressão,
sem dúvida. E qual seria o intuito dele? Bom, à primeira vista, gostaria que
ele fosse um tipo de desabafo, mas que não ficasse restrito apenas aos meus
queixumes e reclamações e nem às minhas dores. Eu gostaria que ele fosse um
meio de vazão dos meus sentimentos, já que nem sempre temos a sorte de
encontrar pessoas pacientes e dispostas a nos ouvir. Sim, talvez as linhas
sejam realmente mais pacientes do que as pessoas. Gostaria de enxergá-lo como um
ponto de encontro de pessoas que sofrem deste mesmo mau e lutam todos os dias
contra essa doença, embora muitas das vezes se sintam cansadas, exauridas,
incompreendidas e quase pensam em desistir.

Quando ainda
muito jovem, tive a oportunidade de ler a carta de Clarice Lispector enviada ao
seu amigo Lúcio Cardoso no livro “Correspondências”. O conceito de Polisipo se
encaixa completamente em meu interesse pela busca por um refúgio a nós todos,
um lugar no qual possamos suspender a nossa dor (porque não a elevar também?),
compartilhar, trocar, fugir dela... O meu livro (onde consta essa carta) ficou
no sul, aliás, a minha coleção inteira de livros da Clarice lá ficou. Assim
como parte de uma vida inteira. Não tive a oportunidade de relê-la ao escrever
este texto. Mas espero com sinceridade que este blog cresça e dê frutos, pois
eu ainda acredito muito na troca e na capacidade do ser humano de ser empático
e criar laços sãos, mesmo que virtuais.